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Faltam Engenheiros no Governo

Poucas coisas têm sido tão ridicularizadas nos últimos tempos, em todo o mundo, quando a prática da Economia por economistas alojados no poder. As chacotas se tornaram quase que diárias, e famosos economistas, como John Kenneth Galbraith, Delfim Netto, Mário Henrique Simonsen e Roberto Macedo, já soltaram farpas contra seus colegas de profissão. Talvez seja por isso que o número de candidatos para a carreira de economista venha caindo, ano após ano, na lista de vestibulares.

Estamos falando, obviamente, dos economistas governamentais, que são aqueles que ainda acreditam na Ciência Econômica. Os economistas empregados no setor privado perceberam ainda cedo que muito pouco do que aprenderam da Ciência Econômica é usado nas suas atividades profissionais. São economistas por causa do diploma, não porque acreditam piamente nas teorias aprendidas nas universidades. Mesmo assim, apesar de toda a incompetência e de reconhecimento dessa incompetência pela sociedade, os economistas governamentais continuam a ser o grupo de profissionais mais poderoso dentro do governo. Qual a razão de tanto poder após tantos fracassos é um mistério insondável.

Os seres humanos se dividem em dois grandes grupos: os quantitativos e os verbais. Os primeiros são bons em números, e os segundos, hábeis na fala. É a grande divisão do ensino: exatas versus humanas, clássico versus científico. Os bons de fala irão tornar-se advogados, jornalistas, sociólogos, economistas governamentais, políticos. Tendem a ser românticos e de esquerda, a acreditar na autoridade da palavra e nas soluções de cima para baixo. Os bons em números irão tornar-se engenheiros, cientistas, químicos, empresários, contadores, administradores. Tendem a ser pragmáticos, apolíticos e a acreditar nas soluções de baixo para cima. Falam mal, escrevem pior ainda, têm pouca influência política.

Ao contrário do que se pensa, os economistas governamentais não são bons em números. Eles fazem parte do grupo verbal da sociedade. Normalmente falam bem e escrevem melhor ainda. Seus artigos, porém, são recheados de analogias, não de números. Observem, em seus artigos assinados, que a argumentação é verbal, teológica, com poucas fórmulas, deduções, números, muito menos projeções de resultados. Seus artigos primam pelas analogias verbais, não pela quantificação numérica. “Somos um Boeing sem rumo”; “precisamos de um choque de credibilidade”, “política do feijão-com-arroz”. Seus planos não são quantificados - são mais um jogo de palavras do que planos operacionais concretos. Por isso não dão certo.

A maioria dos economistas governamentais acredita que Lotus 1-2-3 é uma posição de ioga, e não uma planilha eletrônica. Um dos poucos economistas governamentais brasileiros que entendem de números, Mário Henrique Simonsen, tinha sólida formação em Engenharia. É a exceção que confirma a regra. Eles são tão numerosos porque nosso ensino tem sido voltado aos verbais. Afinal, é mais barato formar um verbal do que um quantitativo. Bastam um professor e um quadro-negro. Não é por menos que o Brasil forma mais economistas do que engenheiros, quando no Japão a relação é oposta a esta e é de 100 para 1.

Apesar de desprovidos das capacidades necessárias para comandar uma economia, dominam nossas vidas. Primeiro, porque os economistas governamentais falam na mesma frequência dos políticos e são, por isso, seus principais assessores. Empolgam os políticos pelo discurso e pela visão utópica de que podem consertar o mundo de cima para baixo. Sua visão é lírica como a de um poeta, e foi justamente na gestão de um presidente-poeta que os economistas governamentais mais influência tiveram. A bem da verdade, os economistas governamentais erram em seus planos não por sadismo, nem por ignorância, mas por incapacidade genética. São pessoas verbais.

Precisamos deixar de ser platéia e ouvir menos os economistas, e aí se inclui a imprensa, e ouvir mais as outras profissões. Existiam várias soluções alternativas para a inflação brasileira, vindas de engenheiros, financistas, empresários, psicólogos e contadores, que não alçaram vôo por falta de ouvidos. As outras profissões precisam sair da toca e preencher esse enorme espaço ocupado exclusivamente pelo economista. O fato de não ser tão verbal quanto os economistas têm levado muitos a se omitir irresponsavelmente em suas contribuições. A questão que se coloca é esta: mexam-se ou serão mexidos.

Stephen Kanitz é formado pela Harvard Business School (www.kanitz.com.br)

Publicado na Revista Exame, Editora Abril, de 27 de junho de 1990, página 122

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fonte www.kanitz.com.br
 
 
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Gostei da sua indicação. Vamos colocar pessoal quantitativo, assim poderemos planejar melhor nosso futuro.
Pierre Sonengen

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