2. Há muitos escritores que escrevem para afagar os seus
próprios egos e mostrar para o público quão
inteligentes são. Se você for jovem, você é
presa fácil para este estilo, porque todo jovem quer se
incluir na sociedade.
Mas não o faça pela erudição, que
é sempre conhecimento de segunda mão. Escreva as
suas experiências únicas, as suas pesquisas bem sucedidas,
ou os erros que já cometeu.
Querer se mostrar é sempre uma tentação,
nem eu consigo resistir de vez em quando de citar um Rousseau
ou Karl Marx. Mas, tendo uma nítida imagem para quem você
está escrevendo, ajuda a manter o bom senso e a humildade.
Querer se exibir nem fica bem.
Resumindo, não caia nessa tentação, leitores
odeiam ser chamados de burros. Leitores querem sair da leitura
mais inteligentes do que antes, querem entender o que você
quis dizer. Seu objetivo será deixar o seu leitor, no final
da leitura, tão informado quanto você, pelo menos
na questão apresentada.
Portanto, o objetivo de um artigo é convencer alguém
de uma nova idéia, não convencer alguém da
sua inteligência. Isto, o leitor irá decidir por
si, dependendo de quão convincente você for.
3. Reescrevo cada artigo, em média, 40 vezes. Releio 40
vezes, seria a frase mais correta porque na maioria das vezes
só mudo uma ou outra palavra, troco a ordem de um parágrafo
ou elimino uma frase, processo que leva praticamente um mês.
Ninguém tem coragem de cortar tudo o que tem de ser cortado
numa única passada. Parece tudo tão perfeito, tudo
tão essencial. Por isto, os cortes são feitos aos
poucos.
Depois tem a leitura para cuidar das vírgulas, do estilo,
da concordância, das palavras repetidas e assim por diante.
Para nós, pobres mortais, não dá para fazer
tudo de uma vez só, como os literatos.
Melhor partir para a especialização, fazendo uma
tarefa BEM FEITA por vez.
Pensando bem, meus artigos são mais esculpidos do que escritos.
Quarenta vezes talvez seja desnecessário para quem for
escrever numa revista menos abrangente. Vinte das minhas releituras
são devido a Veja, com seu público heterogêneo
onde não posso ofender ninguém.
Por exemplo, escrevi um artigo "Em terra de cego quem tem
um olho é rei". É uma análise sociológica
do Brasil e tive de me preocupar com quem poderia se sentir ofendido
com cada frase.
O Presidente Lula, apesar do artigo não ter nada a ver
com ele, poderia achar que é uma crítica pessoal?
Ou um leitor achar que é uma indireta contra este governo?
Devo então mudar o título ou quem lê o artigo
inteiro percebe que o recado é totalmente outro?
Este é o tipo de problema que eu tenho, e espero que um
dia você tenha também.
O meu primeiro rascunho é escrito quando tenho uma inspiração,
que ocorre a qualquer momento lendo uma idéia num livro,
uma frase boba no jornal ou uma declaração infeliz
de um ministro. Às vezes, eu tenho um bom título
e nada mais para começar. Inspiração significa
que você tem um bom início, o meio e dois bons argumentos.
O fechamento vem depois.
Uma vez escrito o rascunho, ele fica de molho por algum tempo,
uma semana, até um mês. O artigo tem de ficar de
molho por algum tempo. Isso é muito importante.
Escrever de véspera é escrever lixo na certa. Por
isto, nossa imprensa vem piorando cada vez mais, e com a internet
nem de véspera se escreve mais. Internet de conteúdo
é uma ficção. A não ser que tenha
sido escrito pelo próprio protagonista da notícia,
não um intermediário.
A segunda leitura só vem uma semana ou um mês depois
e é sempre uma surpresa. Tem frases que nem você
mais entende, tem parágrafos ridículos, mas que
pelo jeito foi você mesmo que escreveu. Tem frases ditas
com ódio, que soam exageradas e infantis, coisa de adolescente
frustrado com o mundo. A única solução é sair apagando.
O artigo vai melhorando aos poucos com cada releitura, com o acréscimo
de novas idéias, ou melhores maneiras de descrever uma
idéia já escrita.
Estas soluções e melhorias vão aparecendo
no carro, no cinema ou na casa de um amigo. Por isto, os artigos
andam comigo no meu Palm Top, para estarem sempre à disposição.
Normalmente, nas primeiras releituras tiro excessos de emoção.
Para que taxar alguém de neoliberal, só para denegri-lo?
Por que dar uma alfinetada extra? É abuso do seu poder,
embora muitos colunistas fazem destas alfinetadas a sua razão
de escrever.
Vão existir neoliberais moderados entre os seus leitores
e por que torná-los inimigos à toa? Vá com
calma com suas afirmações preconceituosas, seu espaço
não é uma tribuna de difamação.
4. Isto leva à regra mais importante de todas: você
normalmente quer convencer alguém que tem uma convicção
contrária à sua. Se você quer mudar o mundo
você terá que começar convencendo os conservadores
a mudar.
Dezenas de jornalistas e colunistas desperdiçam as suas
vidas e a de milhares de árvores, ao serem tão sectários
e ideológicos que acabam sendo lidos somente pelos já
convertidos. Não vão acabar nem mudando o bairro,
somente semeando ódio e cizânia.
Quando detecto a ideologia de um jornalista eu deixo de ler a
sua coluna de imediato. Afinal, quero alguém imparcial
noticiando os fatos, não o militante de um partido. Se
for para ler ideologia, prefiro ir direto na fonte, seja Karl
Marx ou Milton Friedman. Pelo menos, eles sabiam o que estavam
escrevendo.
É muito mais fácil escrever para a sua galera cativa,
sabendo que você vai receber aplausos a cada "Fora
Governo" e "Fora FMI". Mas resista à tentação,
o mercado já está lotado deste tipo de escritor
e jornalista. Economizaríamos milhares de árvores
e tempo se graças a um artigo seu, o Governo ou o FMI mudassem
de idéia.
5. Cada idéia tem de ser repetida duas ou mais vezes. Na
primeira vez você explica de um jeito, na segunda você
explica de outro. Muitas vezes, eu tento encaixar ainda uma terceira
versão.
Nem todo mundo entende na primeira investida, a maioria fica confusa.
A segunda explicação é uma nova tentativa
e serve de reforço e validação para quem
já entendeu da primeira vez.
Informação é redundância. Você
tem que dar mais informação do que o estritamente
necessário. Eu odeio aqueles mapas de sítio de amigo
que se você errar uma indicação você
estará perdido para sempre. Imagine uma instrução
tipo: "se você passar o posto de gasolina, volte, porque
você ultrapassou o nosso sítio".
Ou seja, repeti acima uma idéia mais ou menos quatro vezes,
e mesmo assim muita gente ainda não vai saber o que quer
dizer "redundância" e muitos nunca vão
seguir este conselho.
Neste mesmo exemplo acima também misturei teoria e dois
exemplos práticos. Teoria é que informação
para ser transmitida precisa de alguma redundância, o posto
de gasolina foi um exemplo.
Não sei porque tanto intelectual teórico não
consegue dar a nós, pobres mortais, um único exemplo
do que ele está expondo. Eu me recuso a ler intelectual
que só fica na teoria, suspeito sempre que ele vive numa
redoma de vidro.
6. Se você quer convencer alguém de alguma coisa,
o melhor é deixá-lo chegar à conclusão
sozinho, em vez de você impor a sua. Se ele chegar à
mesma conclusão, você terá um aliado. Se você
apresentar a sua conclusão, terá um desconfiado.
Então, o segredo é colocar os dados, formular a
pergunta que o leitor deve responder, dar alguns argumentos importantes,
e parar por aí. Se o leitor for esperto, ele fará
o passo seguinte, chegará à terrível conclusão
por si só, e se sentirá um gênio.
Se você fizer todo o trabalho sozinho, o gênio será
você, mas você não mudará o mundo, e
perderá os aliados que quer ter.
Num artigo sobre erros graves de um famoso Ministro, fiquei na
dúvida se deveria sugerir que ele fosse preso e nos pagar
pelo prejuízo de 20 bilhões que causou, uma acusação
que poderia até gerar um processo na justiça por
difamação.
Por isto, deixei a última frase de fora. Mostrei o artigo
a um amigo economista antes de publicá-lo, e qual não
foi a minha surpresa quando ele disse indignado: "um ministro
desses deveria ser preso". A última frase nem foi
necessária.
Portanto, não menospreze o seu leitor. Você não
estará escrevendo para perfeitos idiotas e seus leitores
vão achar seus artigos estimulantes. Vão achar que
você os fez pensar.
7. O sétimo truque não é meu, aprendi num
curso de redação. O professor exigia que escrevêssemos
um texto de quatro páginas. Feita a tarefa, pedia que tudo
fosse reescrito em duas páginas sem perder conteúdo.
Parecia impossível, mas normalmente conseguíamos.
Têm frases mais curtas, têm formas mais econômicas,
tem muita lingüiça para retirar.
Em dois meses aprendemos a ser mais concisos, diretos, e achar
soluções mais curtas. Depois, éramos obrigados
a reescrever tudo aquilo novamente em uma única página,
agora sim perdendo parte do conteúdo.
Protesto geral, toda frase era preciosa, não dava para
tirar absolutamente nada. Mas isto nos obrigava a determinar o
que de fato era essencial ao argumento, e o que não era.
Graças a esse treino, a maioria das pessoas me acha extremamente
inteligente, o que lamentavelmente não sou, fui um aluno
médio a vida inteira. O que o pessoal se impressiona é
com a quantidade de informação relevante que consigo
colocar numa única página de artigo, e isto minha
gente não é inteligência, é treino.
Portanto, mãos à obra. Boa sorte e mudem o mundo
com suas pesquisas e observações fundamentadas,
não com seus preconceitos.