Stephen
Kanitz
(Este artigo foi escrito
originalmente em 1984, e foi responsável pela minha
ida ao governo em 1986. Eu atualizei o artigo para os dias
de hoje, e acrescentei algumas anotações históricas
ocorridas desde então. Assim, mantive o valor predito
do artigo que previu uma série de acontecimentos
que de fato ocorreram, sem tornar o artigo desatualizado
ou datado a uma época que muitos não presenciaram.)
O erro do nominalismo econômico
fica absolutamente claro na Crise da Dívida Externa
de 1981. Bastaria um exercício intelectual que cada
negociador aprende a fazer, de inverter as posições.
Suponhamos que a Tennessee
Valley Authority (TVA), a única estatal norte-americana,
tivesse tomado um empréstimo de 90 bilhões
de reais, na época cruzeiros, de banqueiros brasileiros
para construir uma usina nuclear, nos moldes dos contratos
adotados pelos nominalistas (Quadro 1). Os padrões
de observação dos nominalistas, aliados à
taxa de juros nominal na época de 99%, ao ano, levariam
a um pagamento de juros nominais no total de: 89,1 bilhões
de reais ao final do primeiro ano do empréstimo -
um pouco menos que o total do empréstimo original,
um absurdo.
Como as nossas hidroelétricas,
que estavam sendo construídas, a TVA estava
ainda no período de carência do financiamento
hipotético, período em que a obra está
ainda em construção e portanto não
possuía renda própria.
Na impossibilidade de pagar
estes juros nominalistas, a TVA seria forçada
a recorrer ao Fundo Monetário Internacional para
um empréstimo de emergência. Os economistas
do FMI concluiriam que
a TVA, obviamente, estava gastando demais e ganhando
ou "exportando" pouco, e aconselhariam os diretores
da companhia a reduzir suas "importações",
cortar os salários, despedir 15% dos empregados,
diminuir os programas de educação técnica
e, culminariam com o absurdo de propor ao Governo Americano
reduzir a inflação americana na época
por volta dos 4% ao ano para 0,5 por ano em dezembro de
1984 - exatamente as mesmas medidas que o FMI impôs
ao Brasil.
QUADRO1
Empréstimo jumbo de 90 bilhões de cruzeiros
A imprensa americana ficaria
enfurecida com a afronta à soberania dos Estados Unidos
e os pedidos de moratória, vindos dos deputados e senadores
democratas, e irritariam sobremaneira os banqueiros brasileiros.
A Primeira Ministra Margaret
Thatcher sairia a público dizendo que a TVA
deveria arcar com as conseqüências, e o prêmio
Nobel de Economia Milton Friedman, iniciaria uma campanha
contra o Fundo Monetário e a imprensa brasileira,
noticiando a corrupção da diretoria da TVA,
a incapacidade administrativa dos executivos americanos
e a moleza inerente do povo norte-americano.
Obviamente, alguma coisa
está errada com a análise feita pelo FMI e
o prêmio Nobel de Economia Milton Friedman. O erro
é a visão nominalista.
O problema neste cenário hipotético nada tem
a ver com a diretoria da TVA, nem com a sabedoria
de seus investimentos mas, neste caso, exclusivamente com
a inflação brasileira, que estaria embutida
nas taxas de juros nominais, pactuadas por ambas as partes
no contrato de financiamento.
Este exemplo, torna bem claro
que o problema na época não era a falta de
previdência brasileira mas, exclusivamente, os juros
da escola nominalista de economia.
O Prime Rate nos
Estados Unidos, principal fonte do capital emprestado ao
Brasil, também atingiu dois dígitos em 1981,
embora nunca tivesse chegado aos 99% deste nosso caso hipotético.
Mas não há limite de dois dígitos abaixo
do qual as taxas são toleráveis e acima do
qual as taxas são intoleráveis. Os juros americanos
alcançaram 17% em 1981.
Nós, brasileiros,
fomos vítimas de um sistema internacional de financiamento
criado numa época em que os países não
possuíam uma inflação muito acentuada,
o que não ocorre hoje. Por isto, mantiveram a visão
nominalista de observar e precificar os fatos econômicos.
Até hoje, livros de
economia americanos definem o juro real como a taxa nominal
subtraída da inflação, um menos o outro,
e não o cálculo mais aprimorado que requer
uma divisão.
A prática nominalista
de embutir indiretamente a inflação do país
emprestador nas taxas de juros, em vez de embuti-la nas
amortizações, foi uma das principais causas
do ingente problema da dívida externa do Brasil.
A mesma análise se
aplica a dezenas de outros países em desenvolvimento
da época, que também tiveram problemas. A
pior recessão mundial pós-guerra e a crise
financeira internacional foram causadas por uma falácia
nominalista.
Os nominalistas da época
acharam que se propagara uma crise de burrice coletiva entre
os bancos centrais de 30 países ao mesmo tempo, e
não perceberam que todos os países eram vítimas
da única coisa comum entre eles: o nominalismo da
economia americana.
Em 1986 fui convidado pelo
governo Sarney a tentar implantar um sistema de financiamento
internacional baseado em taxas de juros reais, mantendo
o poder de compra das amortizações, vale dizer,
do principal. A tentativa foi parcialmente bem sucedida,
vide no www.kanitz.com.br
o Editorial da Revista Euromoney, a mais influente na época
em financiamentos internacionais. Este editorial gerou interesse
do Tesouro Americano, que criaram o TIPS, com juros reais
pré-determinados.
Como reconheceu tardiamente
um banqueiro americano, se os juros em 1980 tivessem chegado
a 100% eles teriam levado o mundo à falência.
Mas como somente chegaram aos 20%, os nominalistas não
perceberam o erro de sua posição epistemológica.
O erro da Moratória
O Brasil não precisava
de uma moratória para resolver os seus problemas
financeiros. Embora tal fato fizesse um bem danado para
o amor próprio da nação, seria péssimo
para o futuro financeiro de nossos filhos, como de fato
foi.
As simulações
que fiz da Proposta de Moratória do economista Celso
Furtado, mostraram que a moratória seria uma solução
de muito curto prazo e em 1992 estaríamos de volta
às portas do FMI. A moratória mantinha a visão
nominalista, a causadora do problema original.
Uma moratória seria
também um reconhecimento público da nossa
incapacidade de pagar os juros da dívida, e isto,
simplesmente, não era verdade. Infelizmente, Celso
Furtado acabou influenciando economistas como João
Sayad e Paulo Nogueira Batista Jr. e a moratória
acabou sendo decretada em 1987.
A equipe que eu estava coordenando
no Ministério do Planejamento, e que com base no
editorial da Euromoney estava conseguindo todo o interesse
de fundos de pensão americanos, teve seu trabalho
ceifado. A moratória trouxe nefastas conseqüências
para o Brasil. O risco Brasil subiu para nunca mais baixar
pelos próximos 20 anos.
O Brasil estava em dia quanto ao pagamento de seus juros
reais, mas Celso Furtado e os demais economistas da escola
nominalista, não percebiam isto. O problema é
que o sistema financeiro internacional ainda não
funciona com base em juros reais, mas sim com base em juros
nominais, mais corretamente, juros irreais (Quadro 2).
Somos vistos hoje na história
financeira do mundo como uns caloteiros, quando na realidade
fomos vítimas de um sistema financeiro internacional
tecnicamente obsoleto.
Para que pedir uma Moratória
e mais tempo para que possamos adaptar a nossa economia,
quando quem precisa se adaptar à nova realidade internacional
são eles?
A razão pela qual
o Plano FMI não foi viável e a moratória
não resolveu a situação como achavam
estes nominalistas, é que ambos atacaram o problema
errado.
As simulações
(em anexo) do Plano FMI, do Plano Celso Furtado e outros,
que pedem uma moratória de 3 a 5 anos, mostram claramente
sua ineficácia do ponto de vista técnico e
político.

Para resolver o impasse financeiro
criado pelos juros irreais, erroneamente chamados nominais,
propusemos as seguintes reformas para o mercado financeiro
internacional. Estas propostas resolveriam não somente
o problema do Brasil mas de todos os países em apuros:
Proposta n°
1: Juro Nominal não é Juro, é a soma
de duas incertezas.
Ponto 1.
A taxa de juros não deve refletir a inflação
internacional. Países devedores não podem
se comprometer a pagar taxas de juros reais desconhecidas.
O sistema correto é termos contratos com juros reais
pré-determinados.
Paul Volker era na época
o Presidente do FED, e ele deu o seu apoio a este plano
justamente porque a proposta admitia pagar os juros reais
de mercado. Era segundo ele, uma solução de
mercado, e nada tinha a ver com as soluções
intelectualóides de pagar somente 30% das exportações
brasileiras, por exemplo.
O apoio acabou sendo tão
generoso, que fiquei até preocupado. Mas Volker estava
simplesmente querendo reduzir os juros americanos, e via
esta tentativa brasileira como um boi de piranha, para eles
lançarem o que acabaria sendo o TIPS. Se o governo
americano tivesse tomado esta iniciativa, os nominalistas
estariam acusando Volker de introduzir a indexação
nos Estados Unidos.
Um país estrangeiro
como o Brasil estaria livre de tal absurda acusação.
Volker estava correto na sua estratégia.
A inflação
americana assim eliminada, seria paga, mas somente no momento
certo. Ela seria paga no momento da amortização
da dívida, normalmente feita em parcelas que variam
de 5 a 10 anos. Pelo gráfico acima, percebe-se que
os juros reais subiram de 3% para 4,5% enquanto os juros
nominais subiram de 6% para 21%. Do ponto de vista dos economistas
realistas, um juro real de 4,5%, por um único ano
somente, o de 1981, era facilmente absorvido e pagável,
COMO DE FATO FOI. O absurdo foi seguir a cartilha do nominalismo
econômico.
Ponto 2.
0 Brasil pagaria além de um juro real, um juro adicional
para cobrir esta diferença entre o juro-nominal e
o juro-real, que denominaríamos juro-relativo-à-inflação,
e que seria exatamente a taxa de inflação
americana, determinada por algum índice combinado
entre as partes. Poderia ser o Consumer Price Index,
o Wholesale Price Index ou a variação
de preço de algum dos produtos que o Brasil exporta.
Esta solução
resolveria a encrenca brasileira da Correção
Monetária, tão atacada pelos nominalistas
brasileiros, pois seria impossível introduzir o conceito
de correção monetária nos Estados Unidos.
Em vez de se criar uma nova moeda, simplesmente defini correção
do principal como sendo mais um juro a ser pago, o juro-inflação.
Nenhuma alteração contábil é
necessária, somente mais uma rubrica de despesas
de juros.
Este juro-inflação
seria pago juntamente com as amortizações
e a soma dos dois juros propostos, o juro-real e o juro-relativo-à-inflação,
teoricamente seria idêntico ao juro nominal cobrado
atualmente de uma vez só.
Os bancos e investidores
estariam recebendo o mesmo juro, só que desdobrado
em seus verdadeiros componentes. E com uma grande diferença.
O juro real seria conhecido previamente.
Os banqueiros internacionais
não teriam nada a temer de um plano destes quanto
à sua futura rentabilidade, uma vez que eles continuariam
a cobrar taxas de intermediação fixas, acima
da taxa de juros. Só que agora seriam acima de taxas
reais e não nominais. Inclusive, é fácil
demonstrar que a lucratividade dos bancos iria até
aumentar na medida que a dívida não é
mais corroída pela inflação.
As projeções
financeiras destes dois pontos iniciais mostram que somente
esta medida já eliminaria a necessidade de pedir
empréstimos emergenciais do FMI e nos devolveria
as reservas internacionais de que tanto precisamos.
Quando escrevi a primeira
versão deste artigo em 1984, usei pela primeira vez
o novo programa de planilha eletrônica Visicalc, que
possibilitava fazer simulações enormes, de
40 anos como esta da Dívida Externa, e testar as
hipóteses mais malucas. Como por exemplo, como ficaria
a situação se os juros reais se mantivessem
como estavam na época, mas a inflação
despencasse para zero.
Nenhum pesquisador em sã
consciência iria simular à mão uma hipótese
absolutamente improvável como inflação
zero nos Estados Unidos por 40 anos. As planilhas eletrônicas
mudaram isto, e permitiram a economistas e pesquisadores
testarem as hipóteses mais malucas, em segundos.
Eu simulei inflação
zero nos Estados Unidos, por erro de digitação,
como tantas vezes ocorre na Ciência. E para minha
surpresa, nessa simulação sumiam os empréstimos
de emergência necessários do FMI. Ou seja,
o problema não era a DÍVIDA, nem os juros,
era a inflação americana embutida nos juros.
O problema era o nominalismo econômico, que seria
facilmente resolvido introduzindo-se o realismo econômico,
sem termos de exigir sacrifícios da população
brasileira, nem concessões dos banqueiros americanos.
Era somente precificar os juros corretamente.
O Brasil não estava atrasado em seus pagamentos de
juros reais na época. O sistema financeiro internacional
é que estava atrasado na sua teoria contábil
em regimes de inflação. Os economistas do
FMI, e nossos nominalistas também, estavam lançando
amortizações da dívida na nossa conta
de lucro e perdas o que é um erro contábil
e econômico de primeira grandeza. Amortização
não é despesa, é redução
do passivo da empresa ou do país.
Colocado de outra forma,
para quem entende o mínimo de contabilização
de dados econômicos, estavam lançando as despesas
nominais de juros, mas não estavam reconhecendo a
receita “não realizada da corrosão da
nossa dívida” pela inflação americana.
Proposta 2: Uma
forma de reduzir os juros reais
O segundo problema que o
Brasil enfrentava e enfrenta refere-se à elevada
taxa de juro-real do mercado atual. Além dos juros
nominais estarem elevados porque incorporam a inflação
americana, também os juros reais estão elevados
devido ao déficit do tesouro americano e a instabilidade
e insegurança do mercado financeiro internacional.
Por isto, o investidor exige uma taxa de juros mais elevada
para investir num banco que empresta para o Brasil do que
se investisse em Letras do Tesouro Americano. Só
o agiota está disposto a emprestar ao Brasil - dado
o clima de insegurança reinante - e cobra caro pelo
seu risco.
Não temos dúvida
que a implantação dos dois primeiros pontos
já contribuiria para reduzir o clima de insegurança
e, por conseguinte, as taxas de juros. É só
analisar as projeções financeiras da Proposta
1 apresentada. Mas podemos reduzi-los ainda mais. Como?
Ponto 3.
O Brasil garantirá um juro real positivo, à
taxa que for combinada entre as partes. Hoje, o investidor
americano não possui este tipo de garantia além
do TIPS que foram introduzidos em 1990. Obviamente o Brasil
irá cobrar caro por esta garantia, sob a forma de
oferecer juros-reais-garantidos muito inferiores aos juros
reais esperados.
Um investidor somente conhece
o juro real depois de transcorrido o período de aplicação
e por isto o chamamos de juros-reais-esperados, erroneamente
denominados de pós-fixados pelos nominalistas. Na
realidade o que o mercado quer é juros reais pré-fixados,
ou seja garantidos.
Esta insegurança
quanto à remuneração, obviamente eleva
a taxa de juros para o Brasil. E o Brasil paga este ágio
à toa.
As taxas de juros reais
no mercado internacional estão por volta dos 4,0%,
enquanto a média histórica tem sido de 2%.
Agora, pergunte a qualquer
investidor estrangeiro qual das opções ele
prefere:
a) Um provável juro real de 4%, mas incerto?
b) ou um juro real garantido de 3,5%?
Os 12 banqueiros americanos
e jornalistas internacionais a quem colocamos esta pergunta
na época, escolheram os 3,5%, e que é a taxa
média dos TIPS hoje.
Continuavam a preferir 3,5%
garantidos aos 4% incertos. Somente quando abaixamos os
juros para 2,5% é que alguns preferiram correr o
risco dos 4% incertos. Mas fica claro que a grande maioria
prefere um juro real menor, mas garantido, do que um juro
real maior, mas incerto.
Somente esta medida
reduziria a nossa taxa de juros entre 0,5% a 1,5% ao ano
proporcionando uma economia de mais de 1 bilhão de
dólares ao ano para a nação brasileira.
Por sinal, essa garantia
é uma conseqüência direta e automática
da Proposta 1 que garante também, através
dos juros-relativos-à-inflação, a manutenção
do poder de compra do dinheiro depositado pelo investidor.
Parece que estamos dando boas vantagens - mas na realidade
estamos nos beneficiando mais do que eles. É que
hoje já garantimos a inflação americana
- disfarçada que ela está nos juros. Nossa
proposta é que tornemos esta garantia explícita
em contrato e cobremos por esta garantia através
de taxas de juros mais baixas.
Pode o Brasil garantir
a inflação americana? A resposta é
positiva. Na realidade o Brasil já a garante, embutida
que está nos juros.
E se a inflação
americana subir 100%? Provavelmente os preços de
nossas exportações também subirão
entre 95% a 105%. Contanto que o Brasil tenha uma pauta
de exportações mais ou menos diversificada,
e a tem, não há problemas. E seriam muito
menores do que uma Prime Rate de 102% que
esta inflação geraria.
Nossas projeções
mostram que seria muito mais fácil garantir a inflação
americana usando a Proposta 1 do que usando a sistemática
atual de renegociação da dívida.
Proposta
3: Devolvendo estabilidade financeira ao mercado
Uma das regras básicas
da atividade bancária é que empréstimos
de longo prazo devem ser lastreados por depósitos
aplicados por período idêntico ao empréstimo.
Deveria haver um perfeito casamento entre os recursos financeiros
e os empréstimos no que concerne ao período
de aplicação.
Mas esta regra não
tem sido obedecida devido às incertezas introduzidas
pelo nominalismo econômico. A maioria dos bancos é
hoje obrigada a captar recursos devido à incerteza
nominalista.
Emprestar por um prazo longo,
onde é possível ter operações
não lastreadas com períodos a descoberto,
aumenta a instabilidade financeira internacional e, de vez
em quando, ocorre uma crise de liquidez.
Os banqueiros internacionais
não são totalmente culpados por esta prática,
um tanto arriscada: o verdadeiro culpado é o nominalismo
econômico que impera desde 1920. Foi este nominalismo
que destruiu o mercado de aplicações a longo
prazo, uma vez que o risco da inflação se
tornou muito elevado. Ninguém mais sabe qual vai
ser a inflação americana daqui a dois anos,
muito menos daqui a 30 anos, e por isto a maioria dos aplicadores
somente investe em títulos de 6 meses ou 1 ano.
Para contornar este problema,
os banqueiros internacionais criaram contratos de empréstimos,
com taxas de juros flutuantes, uma saída que pareceu
muito inteligente na época. Inteligente para eles,
não para os tomadores.
Com taxas flutuantes os banqueiros
puderam novamente aplicar a longo prazo apesar de estar
captando somente a curto, porque nossos economistas que
serviram os militares na época se comprometiam a
pagar a taxa de juros nominais de curto prazo em vigor a
cada 6 meses, QUALQUER QUE FOSSE ESTA TAXA. Embora fossem
operações não lastreadas, eles poderiam
rolar a dívida facilmente com depósitos a
curto prazo, uma vez que a taxa já estava garantida
por estes contratos denominados de “juros flutuantes”.
A história presente
mostrou que este foi o erro financeiro do século,
e que foram as taxas flutuantes que nos colocaram nesta
crise internacional sem precedentes, além de manter
os juros reais elevados. Vejamos:
Verdade seja dita, o Brasil
não tinha outra alternativa na época a não
ser aceitar contratos com juros em aberto e, na década
de 70, quando a maior parte da dívida foi contraída,
a inflação americana era baixa. Nossos economistas
que contraíram estas dívidas com juros em
aberto, Mario Henrique Simonsen, Delfim Netto e Roberto
Campos não poderiam ter imaginado, quando assinaram
os contratos de empréstimos, que a taxa de juros
chegaria aos níveis de 20% como chegaram em 1980
e 1981.
Mas esta forma de contrato,
com juros nominais e reais em aberto, foi o início
dos nossos problemas. A proposta de juro real fixo traria
de volta a segurança financeira para o Brasil. Saberíamos
de antemão a verdadeira taxa de juros que estaríamos
pagando.
Poderíamos também
oferecer taxas maiores para investimentos a longo prazo,
hoje totalmente inexistentes. Ninguém aplica por
5 anos a taxas fixas com medo da inflação.
Mas, à medida que o Brasil garanta a inflação
americana, investimentos a longo prazo voltarão a
existir se remunerarmos com uma taxa de juro real maior
do que o juro oferecido para aplicações a
curto prazo.
E este ágio adicional
não precisa ser muito grande. Se remunerarmos com
2%, aplicações por 1 ano, muitos investidores
serão atraídos por um bond ou debênture
de 5 anos que ofereça 2,75%. Obviamente, os investidores
comprariam um pouco de cada tipo de prazo. Companhias seguradoras
certamente iriam ser atraídas por prazos maiores
e taxas maiores.
Com este novo sistema, estaríamos
lentamente eliminando a perigosa prática bancária
internacional de captar a curto prazo (6 meses em média)
e aplicar a longo prazo (5 anos em média).
De início, recomendaríamos
aos países devedores a oferecer estas vantagens de
juros-reais-garantidos somente para aplicações
superiores a 2 anos, por exemplo, ou para contratos ainda
mais longos com repactuação de juros somente
a cada dois anos. Um contrato de 4 anos teria um juro real
fixo por 2 anos, ao fim dos quais seria repactuado com a
taxa de juro real da época. Uma grande diferença
com relação ao que acontece hoje, quando um
contrato deste prazo teria oito taxas de juros diferentes
e não somente duas.
Em todo caso, é bom
lembrar que juros reais variam muito menos do que juros
inflacionados ou nominais. Infelizmente, o governo FHC lançou
o Global 40, um título com juros nominais de 13%
ao ano, por nada menos que 40 anos. Cada vez que há
uma variação nos juros reais da economia,
este título é descontado em 40 anos, gerando
enorme volatilidade. Mas isto faz parte do jogo. O que não
deveria fazer parte, é a volatilidade causada pelas
variações de expectativas inflacionárias.
Temos duas fontes de variação: o juro e a
inflação. Por que não eliminar pelo
menos a inflação , usando títulos com
juros reais?
Antonio Delfim Netto, que
se declara nominalista, explicou para um colega, a vantagem
desta minha proposta com uma curta frase. “Variância
zero”. Títulos com juros reais pré-determinados
são os únicos títulos financeiros com
variância zero em termos de rentabilidade futura.
Ações, títulos nominais, imóveis,
todos tem variâncias, e existe uma ciência de
portfolio management em torno de como administrar
estas variâncias, correlacioná-las , etc. O
que mostra que mesmo um nominalista acaba sendo obrigado
a perceber a vantagem de um título real, mesmo que
não aceite que todos títulos sejam desta natureza.
Administradores financeiros
serão os primeiros a perceber que o título
originário do mundo financeiro é um título
real, e que o nominalismo pode ser definido como um título
real sobre o qual se fez um hedge inflacionário.
Ao vender um futuro de inflação, todo título
real se torna um título real, mas não vice-versa.
Na maioria dos anos, a taxa
de juros reais se manteve entre 0 e 1,8% ano após
ano, enquanto que os juros inflacionados variaram de 4 a
20%, uma diferença de 16% entre o máximo e
o mínimo.
Não somente estaríamos
melhorando a segurança e diminuindo a instabilidade
financeira internacional, mas dando real sentido aos períodos
de carência. O Brasil descobriu um tanto tarde que
o período de 3 anos obtidos para construir Itaipu
de nada adiantou, dada às taxas de juros de 20% que
prevaleceram em 1980 e 1981.
Tivemos que pagar 60% da
dívida durante o dito período de carência
quando o projeto nem estava ainda na fase operacional, e
naturalmente, quebramos. E não por culpa nossa como
alardeia a opinião pública internacional.
É por isto que quebramos
logo após o México, apesar da assertiva do
Delfim Netto de que isto não aconteceria conosco
porque o Brasil tivera o cuidado de tomar empréstimos
de longo prazo, pagando spreads de acordo. De nada
adiantaram empréstimos a longo prazo quando a inflação
americana os tornou de curto prazo.
Este fenômeno não
atingiu somente os países em desenvolvimento, por
"estranha" coincidência. Nos Estados Unidos
o nível de falências e concordatas cresceu
45% em 1980 e 1981 e aproximadamente 44% somente no primeiro
semestre de 1982. O que a maioria dos americanos não
percebeu é que este fato foi devido à inflação
incorporada nos empréstimos e não a uma má
administração financeira por parte das empresas
americanas de um ano para outro.
Um terceiro problema que
enfrentamos, especialmente depois da moratória, era
que os banqueiros simplesmente estão nos cobrando
um ágio adicional devido ao risco maior que estariam
incorrendo. Atualmente estamos pagando 1,7 a 2 % de spread
além dos juros inflacionados. Normalmente estes spreads
têm variado em torno de 0,5% a 1,00%.
Alguns banqueiros já
perceberam que cobrar um spread muito elevado simplesmente
aumentará ainda mais o seu risco e dificultará,
senão inviabilizará, o recebimento da dívida.
Pela análise que estamos
apresentando, o risco do Brasil ocorreu somente porque os
bancos utilizaram juros nominais e não reais e que
os juros nominais antecipam o pagamento de juros, causando
assim crises de liquidez. O risco portanto inexiste e os
spreads mais elevados não se justificam.
Proposta 4: Superávits
reais e não superávits nominais
O Fundo Monetário
Internacional está exigindo que o Brasil consiga
um superávit comercial superior às suas despesas
de juros nominais, o que parece uma proposta muito lógica
e sensata. Afinal, se um país não conseguir
obter um superávit que não cubra sequer os
juros, como é que ele conseguirá pagar a dívida?
O Brasil paga por volta de
12 bilhões de dólares só de juros,
por ano. Portanto, ele deveria ter um superávit de
pelo menos 12 bilhões por ano. Quando Margaret Thatcher
diz que chegou a hora de acertar as contas, é a esta
conta que ela se refere.
Então, se conseguirmos
13 bilhões, a rigor, o país poderia até
amortizar 1 bilhão de dólares da dívida
e neste ritmo, levaria 95 anos para quitar a dívida
por inteiro. Meno male.
Mas, esta exigência
econômica não somente é recessiva para
a economia brasileira como é totalmente falaciosa.
O padrão de avaliação correto seria
exigir que os países devedores cobrissem os seus
pagamentos de juros-reais, com certa margem de folga, e
não os seus pagamentos de juros-inflacionados ou
nominais.
Em vez de cobrir juros inflacionados
calculados sobre uma dívida fixa, propomos que o
FMI mude a sua ridícula exigência nominalista
atual para uma fórmula mais realista: os países
deveriam cobrir os juros reais calculados sobre a dívida
corrigida anualmente.
Este pequeno detalhe muda radicalmente o efeito recessivo
das propostas do FMI.
Vejam o caso brasileiro em
1983: com um superávit de 6,5 bilhões alcançado
em 1983 o Brasil já superava em 300% as suas despesas
de juros-reais. Pagávamos os juros reais e ainda
era possível amortizar uma boa parte da dívida.
Para 1984, com uma promessa
feita pela equipe nominalista na época de 9 bilhões,
estaríamos superando as nossas necessidades em 500%,
com graves sacrifícios para a economia. Para que?
Somente para satisfazer um padrão contábil
de um sistema financeiro nominalista que desconhece os efeitos
de sua própria inflação?
Por que forçar o país
numa Montanha-Russa do FMI onde ficaria muito difícil,
de 1983 até 1988, galgar as necessidades de superávits
comerciais cada vez maiores e, a partir daí muito
fácil atingi-los uma vez que seriam lentamente corroídos
pela inflação americana? Veja como mostra
o Gráfico 1.
O Gráfico 1 é
construído dentro do sistema de coordenadas realistas,
e observa o mundo nominal sob coordenadas reais. Vejam a
diferença. Ele mostra que demoraria até 2013
para saldar a dívida externa e com um fluxo de caixa
totalmente irrealista, de enormes superávits no início
e reduzidos superávits no final.
Depois de reorientar totalmente
a nossa economia dentro de um modelo exportador para atingir
14 bilhões de superávit, é óbvio
que não iríamos voltar atrás e reduzir
estes superávits lentamente ano após ano.
E aí os americanos estariam reclamando deles, como
fazem continuamente com o Japão.
Esta proposta de renegociação
incluiria o compromisso do país de obter superávits
nas suas transações comerciais de pelo menos
25% acima dos pagamentos de juros-reais nos primeiros anos,
aumentando a cada ano até 100%, uma margem bastante
aceitável para a maioria dos banqueiros internacionais.
Ponto 4.
Os países tomadores se comprometeriam a conseguir
um superávit comercial 25% maior do que o pagamento
dos juros reais calculados sobre a dívida ou saldo
devedor corrigido, nos primeiros dois anos, aumentando a
margem gradualmente até 100% no período de
10 anos. Não seriam mais obrigados a obterem superávits
superiores aos juros nominais ou inflacionados.
No caso do Brasil, os superávits
para 1983 e 1984 estariam entre US$ 2 bilhões e US$
4 bilhões - ao invés dos hercúleos
US$ 9 bilhões estabelecidos em carta de intenções
ao FMI.
O Gráfico 2 é
construído dentro de coordenadas cartesianas realistas,
e com uma proposta destro da escola realista. Mostra de
imediato uma forma muito mais correta de distribuição
de superávits ao longo do período da dívida.
Notem que em ambos os gráficos, a área de
excedente corresponde exatamente aos 90 bilhões da
dívida. Ou seja, o nominalismo e o realismo não
alteram os fatos econômicos, eles são formas
diferenciadas de observar e ordenar o mundo.
Em ambos os casos nominal
e real, o juro real é o mesmo, a divida é
saldada no mesmo período, o fluxo de caixa é
que é diferente.
GRÁFICO
2
Fórmula Realista: Superávits comerciais maiores
do que juros
reais sobre principal corrigido

Notem que os
juros agora são uma reta constante, previsível,
exatamente aquela acordada entre as partes, ao contrário
do que prega a escola nominalista: juros incertos, que incorporam
amortizações na planilha de juros.
Com o aumento do saldo devedor,
haveria um aumento mais ou menos correspondente nos preços
de nossas exportações. Em termos de sapatos,
por exemplo, o Brasil teria de exportar sempre o mesmo volume.
A solução nominalista
é ilógica, uma vez que o Brasil e o mundo
estarão crescendo nestes 30 anos e assim cresceriam
as nossas exportações e superávits.
Com o compromisso de obtermos
superávits superiores aos juros-reais e não
juros-irreais, poderemos retomar o crescimento industrial
e agrícola deste país, permitindo que as importações
cresçam 25% em 1984.
A solução realista
é uma solução elegante e vendável
para ambos os lados. E o que é mais importante: permite
a ambos os lados parecerem vitoriosos nos seus respectivos
países, um aspecto que nenhum político pode
deixar de apreciar.
O Brasil voltará a
crescer e precisará de superávits menos recessivos,
de acumular reservas e de criar uma estabilidade econômica
e social.
Os banqueiros, apesar de
fazerem algumas importantes concessões, poderão
dizer aos seus acionistas que o Brasil se comprometeu a
pagar um juro real e positivo, pela primeira vez na história,
além de garantir o poder aquisitivo do dinheiro emprestado.
Nunca mais os
países em desenvolvimento terão aquela "mamata"
de desfrutarem taxas de juros negativas, às custas
do investidor americano, como fizeram em 1974 e 1976. Taxas
negativas acabam custando muito caro depois de alguns anos,
como estamos sentindo na pele hoje.
Existe uma corrente que propõe
soluções políticas para a dívida,
o que significa negociações governo a governo,
embora não seja muito clara a solução
técnica a ser discutida entre ambos. Agora, diante
do péssimo trabalho de lobby feito pelo
governo brasileiro perante a opinião pública
mundial, as perspectivas de sairmos com vantagens destas
negociações políticas são bastante
remotas. No mínimo, teríamos por exemplo,
que entregar a indústria de informática.
Esta proposta é elegante,
no sentido científico da palavra, é uma solução
tecnicamente lógica e correta, que permite uma saída
política honrosa para ambos os lados. O Journal
of Commerce fez um editorial desta proposta com o título:
"Uma saída para o impasse?”. O impasse
sendo a provável recusa do povo brasileiro em "agüentar"
o FMI, e a recusa deles em aceitar uma moratória.
Soluções do
tipo pagarmos somente X% de nossas exportações
não são operacionais nem políticas.
Não há como incorporar esta solução
no contrato de empréstimo entre o Wells Fargo
Bank e uma empresa brasileira. Soluções
deste tipo simplesmente centralizariam e estatizariam ainda
mais nossa economia.
Esta proposta independe de
governo. É uma solução de mercado,
não requer a boa vontade do FED, nem concessões
políticas de nossa parte.
Mais cedo ou mais tarde,
um sistema de juros-duplos será implantado, não
há a menor dúvida. (de fato foi, com o TIPS
americano).
Por uma razão muito
simples: há um vasto mercado para ele. Existem bilhões
de dólares à espera de um instrumento financeiro
que garanta a inflação. É só
observar o mercado do ouro, que não rende juros e
não garante totalmente a inflação.
Somente esperamos que essa implantação não
seja feita tarde demais para a nação brasileira.
Finalmente, o sistema atual
de financiamentos internacionais está conceitualmente
errado. Só tem a tradição e inércia
a seu favor. Quem estudou na escola nominalista tem muita
dificuldade em enxergar o mundo de outra forma. É
a base da observação dos economistas desta
escola.
Precisamos mostrar que o
Brasil não está atrasado em seus pagamentos,
mas que é o sistema internacional que está
atrasado em sua contabilidade. Precisamos também
mostrar, de forma firme, que o Brasil não será
o único a se adaptar às novas realidades financeiras
internacionais e os banqueiros terão de se adaptar,
mesmo que isto signifique mudar um ou outro regulamento
bancário.
Agora, se eles acham que
nós seremos os únicos a adaptarmo-nos, eles
estão redondamente enganados.
O Plano
Nominalista do FMI
Nossas projeções
financeiras mostram que se o Brasil renegociar sua dívida
internacional de US$ 90 bilhões este ano, usando
os atuais modelos contratuais nominalistas, teremos que
recorrer sucessivamente ao FMI para obtenção
de recursos adicionais, até o ano de 1998; por mais
15 anos. Pior do que isso, estaremos sem reservas internacionais
até aquele ano, comprometendo a segurança
nacional e nos deixando, durante este período, sem
nenhum poder de negociação.
Depois que
as primeiras modestas reservas internacionais se acumularem
- em 1999, se chegarmos até lá - serão
necessários outros 15 anos, até 2013, para
que o Brasil possa gerar reservas superiores à dívida,
em 1983. Finalmente, três anos mais tarde, em 2016
- 33 anos depois do acordo com o FMI - todos os atuais e
futuros empréstimos estarão liquidados.
Além
dos recorrentes apelos a novos auxílios do FMI -
no mínimo mais 27 cartas de intenções
não cumpridas - e dos longos períodos necessários
para reconstruir as reservas e quitar a dívida de
1983, existem outros aspectos questionáveis sobre
a viabilidade do plano do FMI.
Fica claro também
que o plano do FMI não significa apenas 2 ou 3 anos
de sacrifício, como muitos acreditam. Basta observar
o número de anos que ficaremos sem reservas internacionais
não é somente uma questão de segurança
econômica, mas também de segurança nacional.

Precisamos pelo menos mostrar
ao mundo que a projeção foi feita usando conceitos
antiquados. O Brasil parece mal porque estão exigindo
que o país pague toda a correção monetária
de toda a sua dívida, todo ano: um absurdo da escola
nominalista Não é à toa que o nosso
balanço é ruim no início. Mas, à
medida que a inflação vai corroendo o capital
tomado, atingimos um ponto de equilíbrio em 1999.
Depois tudo será muito mais fácil. O duro
será chegarmos até lá.
A Tese
Realista
Por outro lado,
se adotássemos contratos com juros reais e uma estrutura
ditada pela escola realista, a situação seria
muito melhor. O país já teria gerado reservas
equivalentes a 20% da dívida por volta de 1992 e
30% em 1996, levando-nos a uma situação muito
mais segura, sem precisar recorrer à ajuda do FMI.
Hoje 2004, temos menos que 5%.
Se o leitor
observar as projeções financeiras a seguir,
irá notar que em nenhum ano sequer, o país
precisaria recorrer ao Sistema Financeiro Internacional
com mais recursos de emergência. Até o ano
2002, daqui a 19 anos, o Brasil teria gerado reservas internacionais
no valor de sua dívida de 1983 - inclusive corrigida
- e estaria apto a liquidá-la, se quisesse. Um período
de dezenove anos é mais do que razoável, para
qualquer banqueiro, especialmente se considerarmos que a
dívida foi contraída para financiar projetos
a longo prazo como usinas de aço, hidroelétricas,
ferrovias etc.
Compare estas
projeções com a do PLANO FMI, que usa as mesmas
hipóteses básicas da economia. É difícil
acreditar que ambas as projeções se referem
ao mesmo país. A primeira mostra um país quebrado.
A outra, um país com reservas crescentes e sem depender
do FMI em nenhum ano sequer. Ambas liquidam a dívida
totalmente em 2016 com o mesmo superávit acumulado
durante todos estes anos.
Em qual dos
dois "países" você investiria? Para
qual dos dois você, como banqueiro, emprestaria mais
dinheiro?
Obviamente
o segundo "país". O que paga juros reais
agora e juros-relativos-à-inflação
quando ela deve ser paga. Mesmo que não consigamos
convencer os bancos e investidores a adotar este plano proposto,
precisamos pelo menos mostrar nosso verdadeiro balanço,
aquele elaborado dentro das técnicas contábeis
corretas.
Agora, a prova
dos nove: as projeções da hipótese
de desdobramento dos juros seriam exatamente as projeções
financeiras deste país - na hipótese de não
existir inflação americana. Exatamente iguais.
E aí chegamos à verdadeira conclusão:
sem inflação americana as projeções
brasileiras seriam lindas. Os juros cairiam. Mas, por outro
lado, há US$ 2,9 bilhões, crescendo, daí
em diante. Neste caso, mesmo com um superávit menor,
nossas reservas cresceriam a partir de 1984 e teríamos
reservas equivalentes a 20% da dívida em 1990 e chegariam
a 30% em 1994.
QUADRO
5
Escola Realista (somente o desdobramento dos juros)
Hipótese - Exatamente as mesmas
utilizadas na análise do plano FMI: Prime Rate
incluindo spread = 13% em 83 e 84 aumentando para 15% em
85 em diante. Inflação
americana de 5% em 83 e 84aumentando para 7% em 85 em diante.
Superávit de 9 bi em
84 aumentando 3.6% ao ano. Juro real efetivo de 7.8%.
Resultados: Nenhuma ajuda do FMI necessária.
Reservas internacionais crescentes a partir de 1984.
No ano de 2002 a dívida original éliquidada,
e em 2016 saldaremos as dívidas subseqüentes.
Exatamente o mesmo ano do plano FMI.

De que modo o Brasil poderia
implementar esta reforma?
Primeiro, poderia renegociar
os contratos, caso por caso e banco por banco, substituindo-os
por contratos novos ou títulos, que ofereceriam taxas
de juros reais e mais os juros-relativos-à-inflação.
Poderíamos insinuar que eles não teriam outra
alternativa.
Se os bancos não fossem
receptivos, o que não tem sido a nossa experiência,
o Brasil poderia denunciar os contratos como inconstitucionais
pois foram negociados com cláusulas de juros flutuantes.
Poderíamos também
impor este sistema aos bancos americanos de forma retroativa.
Poderíamos argumentar,
de forma incisiva, que já pagamos os juros reais
de nossa dívida pelos próximos 12 anos e que
os futuros pagamentos seriam compensados de acordo. Uma
forma de se fazer uma moratória com classe. O Quadro
6, a seguir, mostra como seriam as nossas contas se o sistema
internacional tivesse utilizado, desde 1978, uma contabilização
correta. Neste caso teríamos terminado o ano de 1983
com uma dívida maior, de fato, mas também
teríamos reservas de 33 bilhões de dólares.
O que significa que o Brasil acabou pagando antecipadamente
os juros dos próximos 8 a 12 anos e terminou 1983
sem reserva alguma.
QUADRO
6
Se este plano tivesse sido implantado em 1978